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segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

A gargalhada partilhada e a interacção crescente dos bebés - Reflexões de uma mãe psicóloga

 É único e indescritível o momento em que sentimos o nosso bebé parte integrante da dinâmica familiar afectiva. Desde o dia em que nasce, a casa ganha um outro ritmo, novas rotinas às quais todos os elementos se adaptam. Mas existe aquele instante mágico em que sentimos que o bebé não poderia estar mais interactivo, presente e bom entendedor da magia da partilha, do afecto impregnado num sorriso partilhado que rapidamente se transforma numa gargalhada pela alegria do sentimento de unicidade e sintonia. Não me parece de todo descabido, apelidar este momento como o momento da transformação afectiva da família. Até então o que muda são as rotinas, os cuidados, as tarefas e actividades. Há uma readaptação aos papéis familiares e as próprias relações sofrem mudanças. A relação com o bebé começa, também ela, desde o primeiro segundo de vida mas a verdade é que é uma dedicação profunda, uma entrega completa que sabemos ser recompensada vezes sem conta quando sentimos o nosso bebé feliz e activo nas trocas familiares. Sabemos que é desde sempre permeável ao humor familiar mas é fascinante quando o seu interesse ganha forma, e transparece quando numa risota pegada em volta de um acontecimento inesperado contamos também com a gargalha do elemento familiar mais novo. Não que entenda o motivo e o que suscitou a troca de risos incontrolável mas revela a compreensão da atmosfera afectiva da família. É um momento de pura felicidade, de recompensa absoluta do investimento afectivo-emocional de meses, alguns deles influenciados pela privação do sono e pela paciência necessária à compreensão do choro inconsolável característico das cólicas.

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Ser mãe e ser pai é tudo isto, é investir sem esperar nem saber o momento mágico que é a transformação afectiva da família. Ter um bebé participativo, disposto a brincar e a interagir em todos os momentos marca, para sempre, o rumo daquela família. É um renascimento, que conta agora com a acção e construção de um novo rosto e de um bebé disponível para todos os desafios. Surge, invariavelmente, o sentimento de plenitude familiar e de certeza que o seio da família é a zona de conforto e segurança para o pequeno bebé e que serve de mote à exploração confiante do mundo lá fora.
* Imagem retirada da Internet

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

A parentalidade exige responsabilidade, equilíbrio e tranquilidade – Reflexão de uma mãe psicóloga

Esta semana, quando fomos à USF (Unidade Saúde Familiar) para a bebé ser vacinada, ouvi mais do que uma vez, “tadinha, vai à pica!”, “ui, o terror das vacinas!”. Em conversa com a Pediatra percebi que são inúmeros os pais que ficam ansiosos com o momento da vacinação, que choram e se afligem com o sofrimento dos mais pequenos, ainda que este seja sinónimo de protecção contra variadíssimas doenças, muitas delas potencialmente letais. A Enfermeira e a Pediatra rapidamente faziam o reparo às bocas alheias, com uma assertividade exemplar, fruto da prática diária e vasta experiência mas é com alguma surpresa e dificuldade que tento compreender e encontrar possíveis justificações. Ser pai, ser mãe exige responsabilidade, equilíbrio e tranquilidade. Só com estes ingredientes estaremos a cuidar verdadeiramente do futuro dos nossos filhos, da sua saúde física e mental, promotora da estabilidade necessária para fintar os percalços da vida e manter a perseverança necessária à concretização dos objectivos pessoais, profissionais e familiares.

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Nos primeiros anos de vida dos filhos, o que sentimos e transparecemos é aquilo que lhes oferecemos. Poderá ser um presente valiosíssimo ou um presente envenenado. As crianças, essas confiam cegamente nos cuidadores, por isso estão certas de que aquilo que a mãe e o pai lhes oferecem deve ser abraçado e vivido plenamente. Se ao entrarmos num gabinete de enfermagem, com o nosso filho ao colo, chorarmos como se o mundo fosse desabar então aquilo que estamos a comunicar é exactamente isso, o mundo está prestes a ruir e eu estou em pânico! Não nos podemos admirar que amanhã o nosso filho não queira entrar na sala de enfermagem, acabamos de lhe ensinar que lá dentro coisas muito más acontecem, tão más que eu que sou tua mãe, e te devo proteger, não me consegui aguentar. E como este exemplo há inúmeros. Ser mãe e pai é das tarefas mais exigentes a que nos propomos, e para que seja bem sucedida deverá ser altruísta. É também disfarçar o indisfarçável, é sentir receio do futuro mas ainda assim fazer do dia-a-dia um conjunto harmoniosos de rotinas que a criança anseia viver, experimentar e desafiar. A partilha verdadeira dos nossos sentimentos mais sombrios, essa deve ficar para mais tarde, altura em que a criança já possui uma estrutura psicológica que suporte perceber que o pai e a mãe também são pessoas vulneráveis, nem sempre seguras de si! Até lá, a sua auto-estima, a sua segurança só é possível através dos cuidadores. Se for um pai demasiado ansioso, que limita toda e qualquer experiência do seu filho com receio que se magoe, fique a saber que está a encurtar drasticamente o leque de vivências que garantem um desenvolvimento neuropsicológico salutar. Ser mãe e pai é também assistir a quedas, algumas feias, e estar lá, seguro e tranquilo para cuidar e mimar. É difícil? Muito! Mas ninguém disse que era fácil… Erramos muitas vezes? Claro que sim, e é esse o mote da mudança, de aperfeiçoamento do nosso papel enquanto pais. Desengane-se quem se acha perfeito, uma mãe e um pai crescem a par dos filhos. 
* Imagem retirada da Internet

domingo, 27 de outubro de 2013

As pistas, as rotinas e o sono!

Como mãe, a minha perspectiva do desenvolvimento ganha outra forma. Não que antes fosse imaginada porque assisti ao crescimento de muitos bebés, pacientes e familiares, mas porque simplesmente a afectividade que lhe é inerente permite que cada passo seja visualizado com o zoom da alegria e felicidade que é viver o desenvolvimento dos nossos bebés.

Penso que se todos os pais tivessem a informação e formação que tenho seriam muito mais tranquilos quanto ao desenvolvimento dos seus bebés. A variabilidade individual, na universalidade do neurodesenvolvimento, é imensa e aquilo que poderá surgir aos 3 meses num bebé pode surgir noutro aos 2 ou aos 4 meses. Sermos rígidos e aguardarmos pelos marcos de desenvolvimento com a check list à espera de um visto, para além de traduzir a ansiedade que passamos ao bebé, é também sinal da necessidade de repensar as nossas expectativas e mais uma vez adaptarmos a imagem idealizada do bebé para a do real com quem vivemos diariamente.

No nosso caso, foi na semana que completaria os 4 meses que se abriu uma janela de oportunidade, e das valiosas. A das rotinas de sono. E percebendo eu rapidamente as pistas, aproveitei-as como se fossem pedras preciosas. E são! Ditam o primeiro passo da autonomia dos bebés. Numa destas noites a minha filha chorava enquanto a tentava adormecer ao colo, por volta das oito e meia da noite. Estranhei, este já era um hábito estabelecido, entrar no quarto escurecido era suficiente para que o sono ditasse o adormecimento. Confesso que antes de a deitar no berço pensei duas ou três vezes, “será?” No momento que a deitei ficou tranquila, a olhar as imagens que colei no berço e o ursinho que muda de cor e funciona também como luz de presença. Percebendo que era isso que ansiava, sussurrei-lhe “até amanhã, bons sonhos!” Beijei-a, sorriu, nela percebi um olhar de cumplicidade, “percebeste o que eu queria!” Precisava daquele tempo só dela, de fazer um balanço sereno e tranquilo das aprendizagens do dia e perder-se nos contornos dos desenhos e do brilho da luz que a embalaria nos seus primeiros sonhos conduzidos sozinha. Desde então este ritual tem-se mantido e generalizado ao restante sono.

Muitos bebés podem ter esta rotina desde o primeiro dia, depende, cada bebé tem necessidades diferentes. A minha foi aos quatro meses… poderá ser tarde aos olhos de muitos pediatras ou psicólogos. Mas a verdade é que foi no seu tempo, com as pistas ideais para que a compreendesse. Sabia que era uma questão de tempo até que estes pequenos sinais surgissem. O problema surge quando os pais não estão disponíveis para as perceber ou simplesmente não estão suficientemente atentos.

Passa a oportunidade e é certo que o caminho escolhido sendo o errado ditará que mais tarde aquela família terá de arregaçar as mangas e tratar do assunto. Não é desejável que uma criança aos três anos de idade durma na cama dos pais ou precise da presença de um cuidador para que consiga adormecer. Será uma criança mais ansiosa, menos disponível para as aprendizagens e muito dependente do adulto.

Nem oito, nem oitenta. Mas o que mais assisto na minha prática clínica é o oitenta. Crianças de 11 anos que não são minimamente autónomas, extremamente ansiosas que vivem num estado de alerta constante e que realmente sofrem. Elas e os pais, que no entretanto, deixaram de ter também eles uma rotina de sono, este deixou de ser reparador e tranquilo. As rotinas de sono são valiosíssimas, não nos devemos enganar. Ditam a serenidade das noites futuras. Quando exijo aos pais que mudem, que estipulem novas e saudáveis rotinas de sono encontro sempre imensas resistências. Percebo que serão sempre mudanças que causam desconforto, desorganizam a dinâmica em casa mas são tão necessárias como o antibiótico receitado pelo médico.


Não me canso de sublinhar: os bebés dão sempre pistas, comunicam sempre o desconforto pelo choro, mãos fechadas, expressão tensa e respiração ofegante e o conforto pela tranquilidade da sua postura, mãos abertas, respiração pausada e expressão relaxada. Estão em constante relação e por isso, sempre disponíveis para comunicar. Cabe ao adulto ter disponibilidade e vontade de explorar essa interacção.

sábado, 12 de outubro de 2013

Serás certamente uma excelente mãe – Reflexões de uma mãe psicóloga

Os despertares nocturnos para cuidar da minha bebé são, quase sempre e quando o cansaço não é sinónimo de exaustão, promotores de reflexões acerca dos laços que nos unem a pequenos mas tão poderosos seres. Quando lhe guardo o sono muitas vezes pressinto na sua respiração tranquila um número infinito de possibilidades, tudo está em aberto para aquela futura pessoa. São infinitos os caminhos que poderá percorrer. E facilmente penso-a enquanto adulta, segura das suas decisões e opções. Um destes dias pensei, “serás certamente uma excelente mãe”. Como mãe não poderia pensar de outra forma… e recordo-me de me dizerem exactamente o mesmo no hospital, poucas horas após o parto. Eu sei que sou a melhor mãe do universo, do universo da minha filha! Todas as mães o são, simplesmente porque se disponibilizaram a amar e cuidar aquela (especifica) pessoa até ao último dia das suas vidas. E portanto não existem más mães. Poderão existir progenitoras que não se transformaram em mães, ou porque nunca o desejaram, e entregaram os filhos para adopção, ou porque uma doença física ou mental lhes impediu o processo. Estas últimas podem sempre, e em qualquer altura, se tornar excelentes mães, as melhores… para os seus filhos! Basta para isso que sintam vontade, se aventurem no desconforto que algumas mudanças inevitavelmente provocarão, e procurem soluções, possivelmente ajuda para esta transformação. Como psicóloga já vi nascer algumas mães e não existe maior satisfação para um profissional de saúde mental.
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Acompanho actualmente um menino, o João (nome fictício) com uma perturbação do espectro do autismo. É um menino que não se entrega como os outros, que a comunicação não flui naturalmente e que a disponibilidade para cuidar e deixar-se cuidar é muito baixa. No entanto este menino tem a melhor mãe do mundo! E quis o destino que essa mãe não fosse a sua progenitora. A vida de ambos lá se encarregou de cruzar os caminhos que um e outro teriam de percorrer para encontrar a mãe e o filho. Hoje, apesar dos desafios constantes, não há rigorosamente nada que abale os seus papéis. Muitas vezes insegura, a mãe pede ajuda; muitas vezes questiona se a sua atitude foi a melhor nesta e naquela situação mas em vez alguma desistiu e só não o fez porque é a melhor mãe do universo… do universo do João! Ser mãe é isso mesmo, procurar ajuda e suporte quando é necessário ou quando simplesmente a insegurança “bate à porta”. Deixá-la entrar e instalar-se é que não é solução. Ela é certeira na chave do medo e contamina toda e qualquer relação.

Para ser progenitora basta querer, para ser mãe basta amar. O amor por um filho comporta tudo, todos os esforços, todos os desafios e aventuras. Se é mãe, orgulhe-se porque é a melhor mãe do universo… do seu filho!
* Imagem retirada da Internet


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