segunda-feira, 8 de março de 2010

O divórcio

Terça-feira, tarde cinzenta e chuvosa. Uma primeira consulta; motivo: divórcio dos pais.
A Carla é uma menina de 7 anos, esconde um olhar distante, até um pouco desconfiado. Nele carrega o peso das discussões assistidas, no pensamento traz o eco da emoção das palavras incompreendidas, estranhas, que nunca pediu nem quis ouvir.
Do divórcio dos pais, não fala. É mais fácil suportar o desconforto, do confronto dos pais, através do silêncio. Tem duas casas, planeia o seu dia a dia em função disso. À segunda, quando vai à do pai, leva já no saco o equipamento do Ballet que vai usar na quarta-feira e recorda que na quinta não se pode esquecer do livro de exercícios de matemática, no fim de semana é certo que irá praticar. A mãe surpreende-se com a sua organização, com a regra que exige a si própria. A Carla não sabe lidar com o seu limite, impõem a si mesma a perfeição. No divórcio dos pais a perfeição é planificar a semana de forma exímia, é parecer que sempre se viveu assim, que nem uma fase de adaptação foi necessária. Pelas suas palavras, o único senão é mesmo o de não poder estar em dois lugares ao mesmo tempo. Lamenta o período de ausência e o vazio que cria na vida dos pais, não tem consciência que o espaço que não está preenchido é o seu… o de se entregar à alegria do brincar com uma outra menina de 7 anos.
Em casa do pai é-lhe contada uma história e em casa da mãe outra, pergunta-se em qual delas deve acreditar. Prefere interiorizar a dúvida, matar o som, calar as perguntas que surgem no seu pensamento. Os pais, que caminham num luto difícil e prolongado, esquecem-se de cuidar da Carla, não, não se esquecem das refeições, dos banhos, e dos horários da escola. Esquecem-se do colo, de aceitar o momento de silêncio que antecede a partilha.
Na escola, o quadro mantém-se branco, as mesas castanhas e o recreio cinzento. A Mafalda, a amiga que no sábado passado disse que a amava, é uma referência importante mas não é suficiente. A avó aborrece-se com o seu mau humor, questiona-se se será por não gostar dela o suficiente que ao brincar se torna agressiva e exige aquelas brincadeiras tão pouco entusiasmantes.
Hoje, a mãe da Carla tomou uma decisão, empenhar-se no bem-estar da filha, recorreu à consulta psicológica.


Imagem retirada da internet

Quando os cuidadores falham, porque também a sua caminhada está dificultada, há que recorrer ao 4º cuidador, o psicólogo.
A forma como a criança reage ao divórcio depende principalmente de 4 factores:
- Da sua estrutura de personalidade;
- Da relação com cada elemento familiar e da qualidade desta;
- Da duração e intensidade do conflito parental;
- Do suporte prestado pelos pais, bem como da atenção dada às necessidades da criança.
O divórcio dos pais não é um motivo que por si só justifique a avaliação psicológica, mas é importante estar atento às reacções emocionais dos filhos. A comunicação deve ser sempre privilegiada, o melhor suporte é mesmo a abertura para se falar o que se sente e se sentir o que se ouve.

Ana Rita Monteiro

3 comentários:

Su disse...

A comunicação é sem dúvida um dos mais importantes pilares de qualquer relação, e assume um papel especialmente relevante na relação entre pais e filhos...apesar disso é triste ver que nos dias que correm a maioria das pessoas perdeu,quase completamente, a capacidade de partilhar e acima de tudo aceitar e compreender as emoções do outro...É preciso silenciar um pouco o ruído do quotidiano e prestar atenção aos pequenos sinais que os filhos vão tentando fazer chegar aos pais...e nesse aspecto acho que realmente o psicólogo pode ter um papel benéfico e fundamental.

Ana disse...

Muito interessante.
Parabéns,
Ana

Sara Clavel disse...

Muito Bom!

De facto, é essencial que haja compreensão e comunicação, com a criança que, na maior parte das vezes, se esconde num mundo só seu, numa tentativa de se refugiar dos problemas dos adultos.
E as reacções de agressividade, são só perfeitamente naturais, porque decorrem precisamente da necessidade de se enclausurarem nesse mundo imaginário, onde tudo parece perfeito..
É de facto necessário, tentar entrar nesse mundo, impedindo que as crianças deixem de partilhar as suas emoções e sentimentos que, tão confusos são nestas alturas.

Sara (mãe de um filho de 4 anos e, separada há 1 ano)

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